Depois que saio do inferno tudo fica mais fácil, a rotina volta a ter um brilho, acomoda e abraça - bem vindo a céu, querido filho - deus sussurra aos ouvidos. Toda temporada no inferno é idêntica, segue um padrão, produz excitação e sinergia não lapidada. Vejo o que é, como foi, sei que fui enganado. Exaltado, ouço do fundo do poço passos, pisando no chão molhado, quanto mais longe ficam, se afundam, sobra à face, o corpo coberto no chão, continua, grita. È você.
Antes das pessoas chegarem, o alvoroço já havia tomado conta, ficamos a tarde toda se preparando, a rotina era sempre a mesma. Alguns traziam bebidas, os carros estacionavam e a porta era fechada. Pronto, mais algumas doses, e a pequena casa era dividida. Na sala , estava o sentimento de solidariedade, encantava para quem era de fora. Não passar a temporada com os moradores,ajudava muito. Olhavam de fora, como se fosse apenas um jantar de confraternização, traziam, alegria programada e um pouco de bom mocismo. Servíamos bem por um tempo, passava algumas horas e o adeus era evidente, abandonavam o antro.
No quarto, os residentes encaravam seus demônios. A proximidade dos cômodos era grande, se prestassem atenção nos ecos, iriam ouvir nomes propios, sempre os deles – quem estaria me alvejando – estavam todos acostumados, sedados pelo ambiente, as preocupações não eram das maiores, poderiam repousar, alimentar, criar, mesmo sobre tensão. Quem iria falar para um cego que ele esta abraçando o demônio, ele não pode ver, apenas sentir, é o que sentiam era por poros cegos, mãos quebradas, envoltos na túnica da noite, não havia muita escolha. Nesses casos a violência faria um ótimo sentido, mas não era do costume da casa.
Passado um tempo, do quarto ele saiu com algo escrito. Queria provar, algo. Não sabia que estava no inferno, escrevia algo que acreditava. Andou por toda sala, todos se calaram, a musica cessou. Na primeira palavra, o primeiro gesto recebeu um mergulho de duvidas, palavras soltas, amarradas com risadas e coberta por fumaça, ficou fácil desarmar seu gatilho. Todos se importavam demais, queriam saber mais, pensar mais, contar mais, respirar mais, tragar mais, mensurar mais, e tudo se perdia nas virgulas, assegurando que a noite foi produtiva, para todos.O inferno é democrático.
Tempo depois, acabei lendo, parte do que foi escrito naquela noite. Uma gota da água do que aconteceu, mas provei novamente o que havia acontecido. Não havia nada incrível. Nas letras, havia sorrisos, olhares e passos. Registrou precisamente, a noite e resumiu tudo
A atração que sentia por ela, dura até hoje, ele sempre menciona os mesmos fatos em relação a ela, uma cumplicidade, extasiada pelo olhar de fora. Distancia não se mede, tentamos aproxima-la, mas não existe medida universal, sequer uma régua para alcançá-la. É apenas um gesto preso no ar,quando pego, preenche e constrói vazios, em silencio.
30/03/11
0 comentários:
Postar um comentário